sábado, 31 de março de 2007

Insônia

Não era eu que tinha insônia, era aquela menina perdida na janela. Não venha contestar que ela não estava perdida se estava na janela. Não vês que esse é propriamente o indicativo de que ela estava perdida? Se ela estivesse todo dia, de madrugada ou de dia, a passear pela rua, claro que não estaria perdida. Mas na janela, o que ela procura? Por que não descansa, mas segue sempre esta incansável busca; e sou eu que sou contestado? Por que esta tola preocupação comigo que não vivo essa busca incessante e irreversível? Eu que não sou nenhum necessitado. E que vivo tranqüilo no meu apartamento sem esperar por nada, nada mesmo. Esta tudo bem comigo, não vês? Não vês que é ela que precisa de ajuda? Não, não a conheço e como poderia? Se passa todas as noites à janela e de dia provavelmente dorme, pois seu corpo não agüentaria mais ainda. Não lhe disse que é apenas uma menina.
Minha filha que também é uma menina nos últimos tempos vem aqui todo dia. Um dia me faz um chá. Outro me busca no trabalho e me faz caminhar com ela. Outro dia me bota pra tomar um tanto de suco de maracujá. Eu podia achar isso o máximo, mas me preocupa vê-la a se preocupar comigo. Um dia desses, ela teve uma grande idéia! Me levou pra tomar umas com ela. Disse que queria ver eu não dormir mesmo estando de cara cheia. Dessa vez foi muito fácil fazer a vontade dela. Saímos eu, o Zé Lira e ela. E o Zé Lira vinha falar pra minha filha que era coisa de velho que se apaixona por menininha nova pra ver se se renova, mas que com o tempo eu caia em mim e voltava ao normal. Ainda bem que minha filha é bem lúcida e só fez rir da estória dele por mais que ele a contasse como se tivesse certeza do que falava. No outro dia, eu estava mais cansado do que nunca, mas quem estava de ressaca era Lívia e eu a compensei por todos esses dias em que ela tentava cuidar de mim. Mas também nessa noite a menina na janela estava com o olhar perdido de quem precisa. E de repente me veio que até mesmo ela pode não saber do que! Tanto já pensei em como ajudá-la. Queria dar-lhe o que procura. O quer que seja! Mas nem ao menos sei quem é, quanto mais o que quer?

E quem eu sei? E essa diferença entre querer e precisar, quem sabe onde está? Por que de repente o mundo parece tão errado e ela certa e insatisfeita. Por que o mundo segue a girar enquanto pessoas passam as noites sem dormir à espera? Por que o mundo devia parar? Por que eu paro ao vê-la todas às noites? No escuro e silêncio da noite, porque nós 2 entramos na sintonia da ânsia, da inquietude cortante? À espera de algo ou alguém. Será um pai, uma mãe, um namorado? Será que prematuramente ela perdeu um ente? Será que foi abandona. Seus olhos doloridos em concordância com o corpo pendem todo dia na janela. Como que voadores. E eu tenho medo deles voarem e tenho medo deles pesarem cada dia mais. Seus olhos a vigiar a noite parecem nuvens carregadas que não se dispersam, nem despencam.

Parei por aqui








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