sábado, 31 de março de 2007

Encontro

Ele ia sempre àquele lugar quando queria ficar só. Era quase sempre solitário apesar dos grandes amigos com os quais dividia tanto. Aquele lugar reforçava o seu refúgio em si mesmo. Não! Lá era um refúgio que ele tinha fora de si. O descobrira pouco depois de se mudar. E lá estava para pensar e repensar seus dilemas adolescentes que mantivera ao mesmo tempo pasmos e enfraquecidos. Mais ninguém os percebia. E dos seus repentinos e longos silêncios sempre se esperava uma resolução simples e objetivas, ou sempre os justificaram como cansaço ou tédio.
Alcançara rápido a raiz da grandiosa e sábia árvore que sempre o acolhera. Naquele bairro amedrontado, cheio de terrenos baldios, um pouco acima do burburinho da cidade, muita gente morava. Mas quase não se via! As casas tinham donos, mas a rua era só dele, parecia. Não tinha quem o surpreendesse entrando naquele pequenino resto de floresta atlântica que logo-logo seria derrubado, o terreno aplanado e transformado em mais casas pouco habitadas e ruas vazias. De frente para a grossa árvore, a contemplou, mais uma vez agradecido pela sua frágil existência (frágil graças somente aos humanos) e pela sua forte companhia. Contornando-a devagar como de costume, percebeu pernas onde sentariam as suas, quebrando, interrompendo, ou inovando o seu velho ritual. Nestas o pelo era certamente mais fino e claro, e as suas formas e peso mais leves. Seu olhar automaticamente subiu, observando desde a distância entre elas até o que as cobria, o espaço descoberto um pouco depois delas, outras partes cobertas, outras descobertas e um rosto aberto sorridente e surpreso.
Ela usava uma saia rosa estampada e quase transparente - não era de bom tom descer novamente a vista para observar melhor – e uma blusa azul marinho que destacava seus seios de laterais expostas e sua barriga. Na impossibilidade de voltar ao começo da interrupção ritualística, manteve seu olhar acolhido pelo dela e sua voz silenciada. O silêncio foi interrompido por um ordinário oi. - O comprimento é um compromisso imposto pela sociedade, tão bem aceito que inquestionável para o senso comum. Quando expressado necessita rapidamente de outro vocábulo de igual valor ou equivalente.
– Oi ! – Ele sentiu o peso das convenções ruir sua contemplação e interferir no seu tom de voz. Para compensar esse tom desagradável, em outro, continuou: - O que faz aqui?
- Não sei, estava vagando pela rua quando me atrai pelas árvores e barulhos de passarinhos. E você?
- Eu sempre venho aqui. – Isso é uma resposta?
- É bonito né?
Era muito bonito! Os contrastes de folhas de variadas cores e tons, da sombra e da luz forte a passar entre as árvores, a grandeza dos troncos, a corpulência gostosa para encostar e abraçar, a quietude e os singelos movimentos dos pássaros, micos, lagartos, insetos e cobras, que apareciam pouco à nossa presença. Mas, mais que bonito, era o seu refúgio! Aquele lugar onde ele não era ele, não estava nele. E agora, como sê-lo?
- É o meu refúgio!
- Então eu não devia estar aqui?
- Não disse isso.
- Você não é também uma refugiada? – O que estou fazendo?
(risos breves, silêncio)
Mas era um refúgio só dele!
Mas era um refúgio só meu!
- É, acho que sou! Mas do que você se refugia?
- Dos outros. - Hum, que fora!
- Então eu devo estar te atrapalhando!
- “Eu” devo estar te atrapalhando. - Eu só digo besteiras?
- Não.
- Do que você se refugia?
- Dos prédios, carros, da pressa, das vitrines, dos olhares, do calor... do caos, da normalidade do caos, ...
Daonde ela vem?
Será que devo ir embora?
- Então veio pro lugar certo!
(meio-riso) – Você costuma se refugiar muito?
- Não, só o suficiente!

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