sábado, 31 de março de 2007

Lana

Lana chegou mais uma vez em casa, como nos últimos dias, entorpecida de tristeza. Mais uma vez estava sem amigos, mais uma vez ia se trancar no seu mundo, por se achar tão pouco, tão fraca e desinteressante. Ela era mesmo uma mala, tanto que ela mesma não agüentara e largara-se ao acaso e ao sono. Pensou sua vida ser menos fardo enquanto dorme, ou sonhou em acordar no outro dia e descobrir que toda a sua vida era só um sonho ruim. Ela sabe na verdade que a noite de sono não resolverá seus problemas e nem preencherá o vazio que cresce em seu peito.
A pobre Lana já se acostumou com essas fases e agora tenta relaxar enquanto olha o teto. Respira fundo, faz auto-massagem, mas não tem jeito, seu pensamento não pára e o choro rompe seu duro e áspero aspecto. Lana não sabe expor suas mágoas, nem guarda-las, perdoa a todos com facilidade, menos a si. De repente descobre montes de entulho presos dentro de si, e eles a prendendo lá dentro. Aí passa dias sem lembrar compromissos, conseguir fazer coisas objetivas, olhar pros lados antes de atravessar a rua, perceber direito o que está fazendo, passa dias assim entorpecida até descobrir em que se apoiar para partir para a próxima.
Parece que sempre haverão novas derrocadas na sua vida, parece que todas elas a levam de volta ao mesmo ponto. O choro que já lhe incha e empalidece a face, ao mesmo tempo que intensifica, liberta a sua angústia. Mas faz Lana se sentir ainda mais fraca, até mesmo organicamente. Os soluços impedem sua respiração fluida e a fraqueza lhe toma por inteiro. Nesse momento ela se depara com o seu reflexo, o rosto inchado, pálido, os olhos vermelhos assim como o nariz, mas um pequeno brilho no olhar, uma pequena beleza que lembra o passado, e uma pequena admiração por si mesma. Admiração pela sua humildade ao admitir para o seu reflexo toa a sua fraqueza. A sua humildade é algo valioso. E a suavidade lhe toma ao descobrir em si algo que valha. E junto com a suavidade, finalmente o sono. Lana dorme, mas sabe que no outro dia terá de acordar.

Por que todos os dias as mesmas coisas?
Por que sempre temos que levantar, agir, acreditar que tudo vai passar?
“A vida passa”, “tudo passa”, eu estou cansada de escutar. Mas, pra mim, a vida, tudo, é crônico.
O Sol me incomoda, me atrai, me desperta.
E o que fazer? Só pra mim isso é um enigma?
Tanto escrever pouco adianta e o que mais me atrai nessa vida seca?
A fertilidade em mim não pode se reter num papel e uma caneta.
Palavras. Me canso de te-las, queria dar-lhes mais sentidos do que parecem ter. Até mesmo na voz dos outros: ondas passageiras. Mas dar sentido as coisas e pouco senti-las não vale nada. Minha vida parece uma pintura abstrata. Ninguém sabe o que isso retrata. E de que vale retratar tão seca vida?

Acordo com o barulho do mundo. E ele é tão distante, como se fosse um sonho. Quase onão posso tocá-lo.

TEM MAIS EM ALGUM CANTO.

Adolescência 1998

Levantei-me e fui, como sempre, lavar o rosto e as mãos. Por que essa minha mania de lavar rosto e as mãos? Antes não o fazia. Mas a verdade é que sempre tive a mania de olhar muito no espelho. Era lá, na frente do espelho que eu ia antes de sair ou depois de voltar de qualquer lugar, até mesmo quando eu ia do sofá da sala pra o meu quarto. Não era vaidade, não sei bem o que era. Parecia que esperava algo de mim mesma. Ou então queria ter certeza de eu ainda era eu, só tenho certeza de que esperava alguma resposta do espelho.
Bom, mas eu estava mais uma vez diante do espelho, parecia que cada vez que eu olhava pro espelho eu já era outra, ou então eu nunca fui eu mesma, era o que pensava, eu mesma me achava uma menina equivocada!
Então como sempre eu me encarava, esperando que algo acontecesse, me perguntava o que havia mudado, onde estava a menina de antes, o que eu fazia ali, e não respondia. Morria de raiva do espelho e só vivia na frente dele. Fazia textos culpando a menina do espelho pela minha infelicidade, me sentia uma menina sem identidade, vivia perseguindo a mim mesma, e sempre achava que estava sendo falsa. Como alguém pode ser falsa o tempo todo e contra a própria vontade?
Sei que eu sempre me achava falsa, parecia que eu sempre estava escondendo algo dos outros, e nem eu mesma sabia o que era.
Dessa vez eu passei tanto tempo na frente do espelho pensando sobre isso que quando dei por mim já estava atrasada. Lavei então o rosto mais uma vez, pois ele já estava suado, coloquei minha calça jeans, minha miniblusa preta, amarrei meu casaco na cintura e sai.
Na rua costumo esquecer esses pensamentos que meia e volta vem me confundir. Estava aliviada e com uma sensação incrível de liberdade e auto-confiança. Me sentia plena, na praia, guiada pela lua cheia que sempre me pareceu madura e maternal, fazendo eu me sentir segura.
Andei como sempre, vendo os bares cheios de jovens como eu, se divertindo com suas turmas e trocando olhares com os que passam pela praia, sempre abertos a novas amizades e amores. Admirava eles e não sabia porquê. O que eu tinha de diferente deles? Talvez só fosse mais filosófica, menos contentada. Mas sempre admirei a filosofia, e sempre gostei de filosofar, se era só isso não tinha do que reclamar. Acho que não era, eu era mais insegura, mais dramática, mais poética. Mais introvertida? Não, acho que não, eu era extrovertida quando me sentia segura.


PAREI POR AQUI

Suicídio

Era noite de lua, madrugada. Eu a passear pela praia. Noite, praia e eu, lindas mulheres contemplando a vida. Barulho de galhos balançando, de ondas quebrando, de choros longínquos que eu gostaria de consolar. Vou andando pela praia e o choro cada vez mais alto, mas quem chora? Parece que nunca vou encontrar. Não sei por que o choro parece me chamar. Parece que vim a praia para o consolar.
Ao longe, vou enxergando uma menina se banhando. Deve ser ela que está chorando. Chego mais perto. Como ela se parece comigo, um metro e meio, cabelos longos... Não entendo, o choro me acompanha há tanto tempo! Será que é tudo fruto da minha imaginação? Agora ela está nadando. Me vem a mente que ela vai se suicidar. Corro pra tentar salvá-la. De repente me sinto aflita, nervosa, depressiva, apreensiva. Uma mistura de pavor e amargura me inflama e eu entro no mar. Já estou me aproximando dela. Ela nada de vagar. Parece estar calma, mas não pára de nadar. Ela afunda. Eu a sigo e a procuro. Como ela desapareceu assim? Estava a menos de 2 metros de mim!? Vejo tudo: a areia, a superfície, o horizonte submerso do oceano. Ouço gorgulhos, tento e não consigo emergir, a areia clareia e ofusca meus olhos. Só vejo branco. Meu Deus será que a menina era eu? Será que eu morri?
Acordo embebida de morte, de pranto, de medo, tristeza... Madrugada, noite de lua, algo me chama a praia. Vou sem me perguntar por quê. Na mente vagas lembranças de um sonho de um sonho intrigante que tem não sei exatamente o que haver com a sensação que sinto agora. Me vem uma grande curiosidade e determinação, parece que estou indo fazer algo importante, decisivo e bonito. Ouço um choro e sigo a procura da sua dona. Às vezes, no caminho até a praia, fico em dúvida se é real ou criação da minha mente. Por um minuto duvido de tudo. Tenho medo e penso em mil possibilidades. Será um espírito? Será imaginação? Paro, tento pensar em outras coisas.

PAREI POR AQUI

Insônia

Não era eu que tinha insônia, era aquela menina perdida na janela. Não venha contestar que ela não estava perdida se estava na janela. Não vês que esse é propriamente o indicativo de que ela estava perdida? Se ela estivesse todo dia, de madrugada ou de dia, a passear pela rua, claro que não estaria perdida. Mas na janela, o que ela procura? Por que não descansa, mas segue sempre esta incansável busca; e sou eu que sou contestado? Por que esta tola preocupação comigo que não vivo essa busca incessante e irreversível? Eu que não sou nenhum necessitado. E que vivo tranqüilo no meu apartamento sem esperar por nada, nada mesmo. Esta tudo bem comigo, não vês? Não vês que é ela que precisa de ajuda? Não, não a conheço e como poderia? Se passa todas as noites à janela e de dia provavelmente dorme, pois seu corpo não agüentaria mais ainda. Não lhe disse que é apenas uma menina.
Minha filha que também é uma menina nos últimos tempos vem aqui todo dia. Um dia me faz um chá. Outro me busca no trabalho e me faz caminhar com ela. Outro dia me bota pra tomar um tanto de suco de maracujá. Eu podia achar isso o máximo, mas me preocupa vê-la a se preocupar comigo. Um dia desses, ela teve uma grande idéia! Me levou pra tomar umas com ela. Disse que queria ver eu não dormir mesmo estando de cara cheia. Dessa vez foi muito fácil fazer a vontade dela. Saímos eu, o Zé Lira e ela. E o Zé Lira vinha falar pra minha filha que era coisa de velho que se apaixona por menininha nova pra ver se se renova, mas que com o tempo eu caia em mim e voltava ao normal. Ainda bem que minha filha é bem lúcida e só fez rir da estória dele por mais que ele a contasse como se tivesse certeza do que falava. No outro dia, eu estava mais cansado do que nunca, mas quem estava de ressaca era Lívia e eu a compensei por todos esses dias em que ela tentava cuidar de mim. Mas também nessa noite a menina na janela estava com o olhar perdido de quem precisa. E de repente me veio que até mesmo ela pode não saber do que! Tanto já pensei em como ajudá-la. Queria dar-lhe o que procura. O quer que seja! Mas nem ao menos sei quem é, quanto mais o que quer?

E quem eu sei? E essa diferença entre querer e precisar, quem sabe onde está? Por que de repente o mundo parece tão errado e ela certa e insatisfeita. Por que o mundo segue a girar enquanto pessoas passam as noites sem dormir à espera? Por que o mundo devia parar? Por que eu paro ao vê-la todas às noites? No escuro e silêncio da noite, porque nós 2 entramos na sintonia da ânsia, da inquietude cortante? À espera de algo ou alguém. Será um pai, uma mãe, um namorado? Será que prematuramente ela perdeu um ente? Será que foi abandona. Seus olhos doloridos em concordância com o corpo pendem todo dia na janela. Como que voadores. E eu tenho medo deles voarem e tenho medo deles pesarem cada dia mais. Seus olhos a vigiar a noite parecem nuvens carregadas que não se dispersam, nem despencam.

Parei por aqui








Encontro

Ele ia sempre àquele lugar quando queria ficar só. Era quase sempre solitário apesar dos grandes amigos com os quais dividia tanto. Aquele lugar reforçava o seu refúgio em si mesmo. Não! Lá era um refúgio que ele tinha fora de si. O descobrira pouco depois de se mudar. E lá estava para pensar e repensar seus dilemas adolescentes que mantivera ao mesmo tempo pasmos e enfraquecidos. Mais ninguém os percebia. E dos seus repentinos e longos silêncios sempre se esperava uma resolução simples e objetivas, ou sempre os justificaram como cansaço ou tédio.
Alcançara rápido a raiz da grandiosa e sábia árvore que sempre o acolhera. Naquele bairro amedrontado, cheio de terrenos baldios, um pouco acima do burburinho da cidade, muita gente morava. Mas quase não se via! As casas tinham donos, mas a rua era só dele, parecia. Não tinha quem o surpreendesse entrando naquele pequenino resto de floresta atlântica que logo-logo seria derrubado, o terreno aplanado e transformado em mais casas pouco habitadas e ruas vazias. De frente para a grossa árvore, a contemplou, mais uma vez agradecido pela sua frágil existência (frágil graças somente aos humanos) e pela sua forte companhia. Contornando-a devagar como de costume, percebeu pernas onde sentariam as suas, quebrando, interrompendo, ou inovando o seu velho ritual. Nestas o pelo era certamente mais fino e claro, e as suas formas e peso mais leves. Seu olhar automaticamente subiu, observando desde a distância entre elas até o que as cobria, o espaço descoberto um pouco depois delas, outras partes cobertas, outras descobertas e um rosto aberto sorridente e surpreso.
Ela usava uma saia rosa estampada e quase transparente - não era de bom tom descer novamente a vista para observar melhor – e uma blusa azul marinho que destacava seus seios de laterais expostas e sua barriga. Na impossibilidade de voltar ao começo da interrupção ritualística, manteve seu olhar acolhido pelo dela e sua voz silenciada. O silêncio foi interrompido por um ordinário oi. - O comprimento é um compromisso imposto pela sociedade, tão bem aceito que inquestionável para o senso comum. Quando expressado necessita rapidamente de outro vocábulo de igual valor ou equivalente.
– Oi ! – Ele sentiu o peso das convenções ruir sua contemplação e interferir no seu tom de voz. Para compensar esse tom desagradável, em outro, continuou: - O que faz aqui?
- Não sei, estava vagando pela rua quando me atrai pelas árvores e barulhos de passarinhos. E você?
- Eu sempre venho aqui. – Isso é uma resposta?
- É bonito né?
Era muito bonito! Os contrastes de folhas de variadas cores e tons, da sombra e da luz forte a passar entre as árvores, a grandeza dos troncos, a corpulência gostosa para encostar e abraçar, a quietude e os singelos movimentos dos pássaros, micos, lagartos, insetos e cobras, que apareciam pouco à nossa presença. Mas, mais que bonito, era o seu refúgio! Aquele lugar onde ele não era ele, não estava nele. E agora, como sê-lo?
- É o meu refúgio!
- Então eu não devia estar aqui?
- Não disse isso.
- Você não é também uma refugiada? – O que estou fazendo?
(risos breves, silêncio)
Mas era um refúgio só dele!
Mas era um refúgio só meu!
- É, acho que sou! Mas do que você se refugia?
- Dos outros. - Hum, que fora!
- Então eu devo estar te atrapalhando!
- “Eu” devo estar te atrapalhando. - Eu só digo besteiras?
- Não.
- Do que você se refugia?
- Dos prédios, carros, da pressa, das vitrines, dos olhares, do calor... do caos, da normalidade do caos, ...
Daonde ela vem?
Será que devo ir embora?
- Então veio pro lugar certo!
(meio-riso) – Você costuma se refugiar muito?
- Não, só o suficiente!

PAREI POR AQUI