Lana chegou mais uma vez em casa, como nos últimos dias, entorpecida de tristeza. Mais uma vez estava sem amigos, mais uma vez ia se trancar no seu mundo, por se achar tão pouco, tão fraca e desinteressante. Ela era mesmo uma mala, tanto que ela mesma não agüentara e largara-se ao acaso e ao sono. Pensou sua vida ser menos fardo enquanto dorme, ou sonhou em acordar no outro dia e descobrir que toda a sua vida era só um sonho ruim. Ela sabe na verdade que a noite de sono não resolverá seus problemas e nem preencherá o vazio que cresce em seu peito.
A pobre Lana já se acostumou com essas fases e agora tenta relaxar enquanto olha o teto. Respira fundo, faz auto-massagem, mas não tem jeito, seu pensamento não pára e o choro rompe seu duro e áspero aspecto. Lana não sabe expor suas mágoas, nem guarda-las, perdoa a todos com facilidade, menos a si. De repente descobre montes de entulho presos dentro de si, e eles a prendendo lá dentro. Aí passa dias sem lembrar compromissos, conseguir fazer coisas objetivas, olhar pros lados antes de atravessar a rua, perceber direito o que está fazendo, passa dias assim entorpecida até descobrir em que se apoiar para partir para a próxima.
Parece que sempre haverão novas derrocadas na sua vida, parece que todas elas a levam de volta ao mesmo ponto. O choro que já lhe incha e empalidece a face, ao mesmo tempo que intensifica, liberta a sua angústia. Mas faz Lana se sentir ainda mais fraca, até mesmo organicamente. Os soluços impedem sua respiração fluida e a fraqueza lhe toma por inteiro. Nesse momento ela se depara com o seu reflexo, o rosto inchado, pálido, os olhos vermelhos assim como o nariz, mas um pequeno brilho no olhar, uma pequena beleza que lembra o passado, e uma pequena admiração por si mesma. Admiração pela sua humildade ao admitir para o seu reflexo toa a sua fraqueza. A sua humildade é algo valioso. E a suavidade lhe toma ao descobrir em si algo que valha. E junto com a suavidade, finalmente o sono. Lana dorme, mas sabe que no outro dia terá de acordar.
Por que todos os dias as mesmas coisas?
Por que sempre temos que levantar, agir, acreditar que tudo vai passar?
“A vida passa”, “tudo passa”, eu estou cansada de escutar. Mas, pra mim, a vida, tudo, é crônico.
O Sol me incomoda, me atrai, me desperta.
E o que fazer? Só pra mim isso é um enigma?
Tanto escrever pouco adianta e o que mais me atrai nessa vida seca?
A fertilidade em mim não pode se reter num papel e uma caneta.
Palavras. Me canso de te-las, queria dar-lhes mais sentidos do que parecem ter. Até mesmo na voz dos outros: ondas passageiras. Mas dar sentido as coisas e pouco senti-las não vale nada. Minha vida parece uma pintura abstrata. Ninguém sabe o que isso retrata. E de que vale retratar tão seca vida?
Acordo com o barulho do mundo. E ele é tão distante, como se fosse um sonho. Quase onão posso tocá-lo.