Ele tinha altura mediana, negro bem escuro como poucos nesse
Brasil não chegado a radicalidades. Tinha cabelo curto e mal cortado, barba e bigode grandes e
emaranhados. Estava vestindo uma bermuda preta e estava todo muito sujo. Estava
sentado numa mureta entre as duas pistas de uma movimentada rua de Salvador. Eu
passei por ele. Todos fingiam que não viam, ou que não se importavam, ou
tentavam não enxergar, ou achavam que o assunto não lhes cabia. Ele tinha um semblante
pasmo, assim como eu, só que não o externei.
Ser gente é estar sempre entre iguais e indiferentes. Gente
não sabe olhar pros lados e tem na sua frente um misterioso foco. Misterioso
para mim! Tive vontade de falar-lhe um oi. Mas eu mesmo não sou chegada a ois. Não
é exatamente pena, o que eu senti, e sinto, dessa, de outras vezes e sempre. É
um abismo, um vácuo estranho entre o meu mundo e o dele. Eu penso que já é difícil, para qualquer um, ser gente entre iguais e indiferentes. Já há tanta distância a
percorrer para se chegar até um outro estando todos nesse mesmo mundo. Mas o
mundo dele parece ser outro. Pra mim, ele parece estar preso num mundo mais
inseguro e mais só. O meu mundo não quer vê-lo. Prefere fingir que ele não
existe. Eu faço parte desse mundo, mas queria conhecer outro. Me lembro das
vezes em que estive sem dinheiro e cansada na rua por poucos (e duradouros?) instantes.
Me lembro de meus momentos de desespero
em que sai perdida por esse mundo, sabendo onde estava, como voltar pra casa,
mas sem sentir que qualquer lugar poderia me salvar. Me pergunto se é nesse
mundo que ele está, ou o quanto ele vaga por esse mundo que eu conheci de
relance. Toda vez que os vejo me vejo entre esses mundos por um instante e me
pergunto se há como juntá-los. Não me prendo ao lugar, a sujeira, ou ao seu
jeito descuidado, mas aquele olhar extremamente pasmo me transporta sempre que o vejo.
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